A indústria brasileira contemporânea exige uma reconfiguração profunda na relação entre a oferta de tecnologia de ponta e a capacitação de pessoas qualificadas.
Nesse contexto, o Projeto Uma Chance, idealizado pelo professor Antonio Gomes de Araujo com a doação de dois XP340, surgiu como uma alternativa de formação para pessoas de baixa renda que desejavam se qualificar profissionalmente, mas não tinham condições de acesso a cursos técnicos na região de Cabo de Santo Agostinho, e Grande Recife em Pernambuco.
Este artigo mostra como a educação profissionalizante pode atuar como um catalisador de mudança social que beneficia toda a indústria em um horizonte que se estende pelos próximos anos.
Conheça quem está por trás do Projeto Uma Chance
Para compreender o Projeto Uma Chance, é preciso analisar a trajetória técnica de seu fundador. Antonio Gomes de Araujo é mestre em Engenharia Naval pela Universidade de São Paulo (USP) e construiu uma carreira de 57 anos atuando nas áreas de manutenção eletroeletrônica, gestão de ativos e automação industrial, assim como docente acadêmico nas áreas da engenharia.
Sua formação acadêmica é ampla e sólida, incluindo graduação em Tecnologia em Eletricidade pela Universidade Mackenzie, pós-graduação em Engenharia Eletrônica no Japão, além de especialização em Gerenciamento de Manutenção pela FEI-SP.
Com uma trajetória de 29 anos como instrutor do SENAI em São Paulo, o professor Antonio construiu uma vivência que moldou de forma profunda sua percepção sobre as lacunas do ensino técnico e as demandas reais do chão de fábrica. A motivação do Projeto Uma Chance nasceu de um incômodo social: ao observar o avanço da vulnerabilidade urbana naquela região, o professor identificou que muitas pessoas são privadas de oportunidades de qualificação profissional técnica.
A proposta é objetiva: democratizar o acesso ao conhecimento em automação industrial para criar caminhos para que indivíduos sem renda fixa possam conquistar autonomia profissional digna por meio da prestação de serviços técnicos qualificados.

Estrutura e infraestrutura do projeto
O projeto opera com uma infraestrutura física otimizada para o aprendizado intensivo, em salas que totalizam 60 m², o ambiente é dividido entre laboratórios de instalações elétricas e laboratórios de automação industrial, permitindo a integração entre teoria e prática desde os primeiros contatos dos participantes com a tecnologia:
| Infraestrutura | Detalhamento |
| Laboratório de elétrica | Sala com 5 bancadas equipadas para reparos residenciais básicos. |
| Laboratório de automação | Sala com 10 computadores dedicados à programação de CLP e IHM. |
| Recursos audiovisuais | Projetor multimídia, quadro branco e bloco de notas flip-chart para aulas expositivas. |
| Suporte pedagógico | Um auxiliar técnico para preparação de material didático e prospecção de parceiros. |
A sustentabilidade do projeto é garantida por uma rede colaborativa conhecida como “Apoiadores do Projeto Uma Chance”, formada por ex-alunos do SENAI e empresários parceiros, entre eles Renato Silva e Jones Clemente, integrantes da nossa equipe e ex-alunos do professor Antonio. Esse grupo viabiliza o projeto por meio de suporte financeiro destinado às despesas operacionais, além da doação de materiais e suporte técnico através de palestras em suas expertises. Contando com suporte local do Jorge Sales, também da equipe Altus.
Essa conexão ajudou a aproximação do professor com a Altus, resultando na doação de 2 XP340, 4 maletas de CLP DUO e 2 maletas de CLP PONTO para ampliar o nível técnico das atividades práticas.
Metodologia: da eletricidade residencial à indústria 4.0
O Projeto Uma Chance vai além do ensino de ferramentas e tecnologias: ele propõe uma formação técnica integral, alinhada às demandas reais da indústria. Sua estrutura curricular foi organizada em programas específicos, cuidadosamente desenvolvidos para atender perfis distintos de alunos, considerando diferentes níveis de conhecimento e necessidades de inserção no mercado de trabalho, como você vai poder ver abaixo:
- – Reparos básicos em instalações elétricas residenciais: este programa é voltado para qualquer pessoa em situação de vulnerabilidade social. O objetivo principal é promover a empregabilidade imediata, seja como ajudante de eletricista ou como prestador de serviços autônomo, garantindo uma base técnica segura e alinhada às normas vigentes.
- – Minicurso de reparos básicos em instalações elétricas residenciais para mulheres: com uma carga horária de 15 horas, este programa tem como objetivo é habilitar mulheres para realizar manutenções básicas com segurança, diminuindo a dependência de serviços externos, prevenindo acidentes doméstico, fortalecendo a confiança das participantes e ampliando suas possibilidades de atuação no cotidiano.
- – Fundamentos de automação industrial e CLP para eletricistas: este programa é destinado a profissionais que já possuem base em eletricidade. Com carga horária média de 70 horas, o curso foi estruturado para requalificar esses profissionais, introduzindo-os à lógica de controle moderna aplicada à automação industrial. As atividades práticas utilizam o Nexto XP, da Altus, permitindo que os participantes desenvolvam competências alinhadas às novas exigências do chão de fábrica.

Nexto XP e a aplicação para o ensino de tecnologia
A doação dos equipamentos da Altus, em especial dos controladores XP340, representou uma grande mudança para o Projeto Uma Chance. Pertencente ao Sistema Nexto, o XP340 é um controlador programável compacto e de alta performance, desenvolvido para atender plenamente aos requisitos da Indústria 4.0.
O uso desse hardware nas aulas práticas proporciona aos alunos contato direto com tecnologias de última geração em controle industrial, alinhadas às demandas reais do mercado. Por meio das especificações do equipamento, os participantes vivenciam, na prática, conceitos de automação, conectividade e digitalização industrial, elevando o nível técnico da formação oferecida pelo projeto:
| Atributo técnico | Especificação do XP340 |
| Processador | ARM 32 bits de alta velocidade. |
| Entradas digitais | 16 pontos optoisolados. |
| Saídas digitais | 16 saídas a transistor (tipo fonte) com proteção contra surtos. |
| Entradas analógicas | 5 canais multiuso (V/I) e 2 canais RTD para sensores de temperatura. |
| Saídas analógicas | 4 canais de tensão ou corrente configuráveis. |
| Memória de variáveis | 6 MB para variáveis simbólicas e 8 MB para programa. |
| Comunicação | Interfaces Ethernet, RS-485, CAN e porta USB Host integradas. |
A presença de funcionalidades como o Webvisu permite que os alunos aprendam a criar telas de supervisão acessíveis diretamente por navegadores web, em tablets ou smartphones, dispensando a necessidade de uma habilitação específica em sistemas SCADA complexos em aplicações de pequeno porte.
A capacidade do XP340 de atuar como mestre CANopen também amplia as possibilidades didáticas do curso, permitindo que os alunos expandam o sistema com módulos adicionais e simulem arquiteturas complexas de automação distribuída, comuns em ambientes reais.

Além disso, o Professor Antonio estruturou o conteúdo programático de forma a contemplar as linguagens de programação mais demandadas pelo mercado, utilizando o MasterTool como principal ferramenta de ensino. Os alunos têm contato prático com Diagrama Ladder (LD), Texto Estruturado (ST), Blocos Funcionais (FBD) e SFC (Sequenciamento Gráfico de Funções), desenvolvendo uma visão ampla das lógicas de controle industriais.
O MasterTool também se destaca por permitir alterações online e oferecer recursos avançados de simulação offline, o que é uma grande vantagem pedagógica, pois essa funcionalidade possibilita que os alunos testem e validem seus programas antes de carregá-los no hardware físico, reduzindo riscos de falhas ou danos aos equipamentos e, ao mesmo tempo, aumentando a confiança e a autonomia no processo de aprendizagem.
Conhecendo quem já viveu os resultados do projeto
A eficácia de um projeto social não se mede em voltagens, diagramas ou linhas de código, mas nas trajetórias que ele é capaz de transformar. Filipe Jaime, hoje com 21 anos, é uma das provas do sucesso do Projeto Uma Chance. Sua jornada teve início aos 15 anos, quando ingressou no curso de elétrica sob a orientação do Professor Antonio.
Ao concluir sua primeira certificação, aos 16 anos, Filipe se deparou com um obstáculo recorrente no mercado de trabalho: o preconceito em relação à juventude. “Ninguém confiava no meu trabalho”, relata o jovem, ao descrever um período de frustração que quase o afastou definitivamente da profissão. Nesse momento decisivo, o papel do mentor foi essencial. O Professor Antonio foi além do ensino técnico, oferecendo acolhimento, orientação e incentivo contínuo para que Filipe recuperasse a confiança e persistisse em sua formação.
Mesmo sem saber o que era um CLP antes do curso, Filipe descreveu a interação com o XP340 da Altus como “maravilhosa”. A facilidade de aprendizado, proporcionada por uma didática que equilibra 50% de teoria e 50% de prática, permitiu que ele dominasse a lógica de programação de forma intuitiva.
Atualmente, Filipe trabalha na manutenção elétrica de uma fábrica industrial equipada com maquinário complexo. O diferencial de sua formação permitiu que ele fosse além da manutenção básica: hoje, ele auxilia os programadores da fábrica na manutenção e ajustes de CLPs, aplicando o conhecimento do MasterTool e do XP340.
Sua trajetória é um exemplo de como a tecnologia de automação aliada à projetos sociais pode transformar um jovem em situação de vulnerabilidade em um profissional de alto desempenho. Mais do que uma história individual de sucesso, é a prova de que investimento em educação técnica de qualidade é também um investimento direto na competitividade da indústria brasileira.
O Projeto Uma Chance é a prova de que, mesmo em um setor altamente tecnológico como a automação industrial, o elemento mais valioso continua sendo o humano: a capacidade de aprender, evoluir e, sobretudo, estender a mão àqueles que buscam uma nova trajetória profissional.











